terça-feira, 1 de agosto de 2017

Cartão postal.

Ultimamente ela tem pensando muito e em muitas coisas. Mais do que em outros dias. Não sabe dizer se é a falta de tempo ou excesso dele, mas pensamentos insistentes vem e voltam com mais frequência do que são bem vindos. Ela sabe bem que são do tipo de visita que não adianta fugir. Recursar-se a abrir a porta é sofrer com o peito cheio de angustia, é como enclausurar a si mesma num quarto escuro cujas paredes ecoam continuamente seus medos. 
E um dia disseram a ela que talvez, só talvez, monstros tenham mais medo de si mesmos do que de quem assustam, e que o seu próprio medo os alimenta. Já que é assim, ela não alimentaria mais monstro algum dentro de si e tentaria ao máximo reconhecer a si mesma pra não temer nada além do que realmente estivesse fora de seu alcance. 
Então, sempre que um pensamento bate a sua porta, seja as 3 da manha de uma segunda feira, ou as 3 da tarde de um sábado tedioso, ela o recebe de portas e braços aberto. Os pensamentos, bons ou ruins são convidados a entrar e a permanecer. Ela os encara bem, porque nunca sabe o que trazem consigo. Qual magoa ou riso aquele visitante traz na bagagem é sempre um mistério. E pelo pouco que sei, na maioria das vezes vem acompanhado dos dois, por nunca serem inteiramente bons ou ruins. Quando um pensamento chega e entra e se acomoda, ele é ouvido. Com carinho e cuidado, porque toda visita tem uma razão de ser. Jamais bateram a sua porta sem proposito, ainda que sem aviso. Depois ela o toma pra si, afinal, todos lhe pertencem. 
Pensamentos são criaturas estranhas, sempre pondera. Fogem de casa e costumam vagar muito tempo até retornarem. E quando retornam, normalmente aparecem cheios de sentimentos a serem ouvidos. Quando terminam, ela os escreve na parede da sala, do quarto, da alma. Só pra depois pintar a parede. Escolhe a cor mais alegre. Ou não as vezes. E os cobre. Se engana quem pensa que ela faz isso por motivo de vergonha, pra esconde-los ou para esquece-los. Faz isso para eterniza-los. 
No final do dia, angustiantes ou não, aqueles visitantes vieram apenas pra isso. Trazer nova cor as paredes de sua vida. 

"Now I wake up to a different bedroom everyday
Living up in the clouds thinking of how it all changed
Used to sit and watch paint dry
Amazed by the limelight
I can't ever be afraid"

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Achados e perdidos.

Já passa da meia noite e toca uma musica querida que eu costumava ouvir durante as longas caminhadas sozinhas naquele país de língua esquisita. Eu lembro que fazia frio e eu me sentia sozinha. Mas eu caminhava e observava. Eu via as folhas amareladas pelo tempo, folhas da estação que mesmo sem conhecer, eu tinha elegido como minha. Eu via as pessoas caminhando, as ouvia, podendo entender uma ou duas palavras e me lembro de me perguntar em silencio, o que diziam. Falavam de amor? Falavam elas do tempo? Da vida? Eu gostava de imaginar. E continuava a caminhar, sempre escolhendo caminhos pelos quais não pisei e sempre observando tudo com um medo absurdo de esquecer. Hoje não lembro sequer o nome das ruas. 
Mas lembro como se estivesse lá, de ser abraçada por aquela solidão carinhosa e quente e mesmo distante, estrangeira, mesmo sendo a definição de saudade, me sentir em casa. Eu estava comigo. Era um tempo em que eu fui minha casa. Eu fui meu abraço preferido, eu fui meu amor, eu fui meu templo. Eu era minha. As vezes solitária, as vezes sozinha, as vezes entre amigos, pessoas queridas, mas sempre, sempre comigo. 
Se eu pudesse voltar no tempo, eu não mudaria nada. Eu teria me permitido mais uma vez aproveitar da solidão avassaladora que eu sentia quando caminha sozinha pelas tardes de inverno ou primavera, com aquela playlist tocando no ouvido e na alma. Eu me deixaria, novamente, entrar tímida, sem conhecimento, e pedir um doce desconhecido. E me arrepender. E pedir outro e outro, até que eu pudesse achar aquele favorito, que eu jamais imaginei comer, naquela padaria pequena e escondida, do senhor baixinho e carrancudo que não parecia falar uma virgula do mesmo que eu. 
E eu caminharia de novo, até aquele banco preferido, na frente daquele rio, e me deixaria pensar de novo sobre a vida, os amores, as saudades e tudo. E mais uma vez, eu me deixaria tentar olhar cada ponto, cada rosto, cada placa, com a certeza de que meu coração sentiria saudade. 
Se eu pudesse voltar, eu desejaria de novo chorar todas as lagrimas e sentir falta mais uma vez de mãos segurando as minhas, de ver os rosto dos meus pais, de sentir a dualidade entre estar insatisfeita e grata por aquela vida. 
Hoje, enquanto toca aquela musica que eu costumava ouvir na solidão daquele país estranho e lindo, eu percebo que enquanto me perdia e vagava, encontrei a mim mesma e estive comigo como em nenhum momento. E murmuro e relembro a mim mesma que não temo e não devo temer as mudanças de percurso, as paradas, os desvios, os despropósitos. Porque eu sei, que mesmo no pior dos caminhos, eu estarei lá, comigo. 

"With every small disaster
I’ll let the waters still
Take me away to some place real"

sábado, 1 de abril de 2017

Sobre amor, mais uma vez.

Mais uma vez e sempre venho aqui dizer do amor que espero. Do amor maduro e seguro que quero poder sentir entre meus dedos ao ter minhas mão entrelaçadas ao destino do outro. Do amor de paz que quero ao deixar meu olhar descansar sobre os muitos caminhos de um rosto que conhecerei além de mim mesma, que como insight de outra vida, terei reconhecido. 
Espero de um amor pra toda vida nada mais que amizade e carinho. Amizade de poder usar a franqueza e dizer "olha, olha aqui dentro de mim e conhece meus defeitos, meus piores defeitos e me conhece" e ter a certeza que o outro me aceita, assim, imperfeita. 
E com o carinho de quem ama eu quero errar, errar muito, varias e varias vezes, tendo a confiança mais tranquila do mundo que o meu amor me mostrará um jeito cheio de carinho de acertar, de que pra tudo no mundo há jeito, de que perdido só o tempo. 
Do amor da minha vida eu não espero nada além de respeito. Respeito e amor pelas diferenças de cada ponto de vista, pelas diferenças de crenças, pelas diferentes esperas do dia a dia. E eu espero. Um dia, eu saberei. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Para mim.

Não você não é nem metade do dizem. Você conhece seu coração e suas escolhas como ninguém, o que te da ao direito de você e apenas você fazer considerações sobre si mesma. Abra os olhos. Não deixe o medo e a infelicidade alheia dizer a você o que você é e como deve agir. Você não deve a ninguém sua vida, seu sorriso, seu jeito de ser. Seu orgulho é seu e cabe a nenhum deles lhe apontar o dedo e lhe dizer que esta errada, quando você sabe, como sempre soube, que tem direito a voz e ao riso, como qualquer pessoa. 
Você é mulher, você é linda e você é você. Com todas as escolhas de vida que vez, com todas as mãos que já apertou, os olhares que já trocou, as roupas que já vestiu. Por estar viva, você viveu como tinha que viver, fazendo escolhas e convivendo com elas, porque, meu bem, é a sua vida sendo vivida do jeito que você quer e não cabe a ninguém lhe dizer como agir. 
Tudo que você já fez e viveu construiu essa pessoa que você vê em frente ao espelho. Essa pessoa linda e gentil rodeadas de amor e amigos. Você tem o direito e o dever de se achar incrível. De se achar linda, de se orgulhar, de amar a si mesma, de se sentir bem com você. De sorrir abertamente, de sair livremente, de ser! 
Olhar o mundo em volta com orgulho da pessoa que é. Não tenha vergonha. Não tenha vergonha do que foi, do que é ou do que sonha ser. Não tenha vergonha nem mesmo daqueles que se julgam no direito de te dizer como você deve se sentir sobre si mesma. Seu corpo e sua voz são suas. E só a você sua felicidade pertence. 

Com todo amor de mim, 
D. 

“Some people feel the rain, others just get wet”

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Tenho andado fora de mim e acompanhado minha vida sendo apenas a sombra de um corpo que se move sem direção, sem condução. Vejo meu corpo sendo arrastado, saqueado, maltratado e não digo nada, porque sou apenas a sombra daquilo que um dia não cheguei nem a ser.  Não tenho voz porque não existo. Não vivo. E sobreviver é quase um fracasso diário, sem chegar nem ao menos perto de uma tentativa decente de ser. Os dias passam constantemente me ultrapassando, porque esse corpo inútil ao qual estou atada e obrigo-me a chamar de meu, se arrasta, carregado de fracassos. É difícil caminhar quando se tem anos de tristeza pesando sobre ombros que mal suportam o peso do mundo, quanto mais o peso de sua própria cabeça. 
Como sombra, apenas observo e absorvo a inutilidade, a incapacidade do corpo que perdura dias a fio sem razão de ser. Há dias que observo o corpo caminhar em direção a pequenos barulhos de humanidade, como se mesmo sem controle, algo dentro dele o fadasse a sobrevivência e me aflijo. Como sombra tenho medo de qualquer sinal de luz. Tenho medo de que as pequenas possibilidades de luz que me assombram sejam mais forte que eu e me obriguem a tomar posse, mais uma vez, desse corpo que sigo.
Não sou. Não quero ser. Não quero O ser. Quero apenas a invisibilidade da sombra. Onde observo e nada me atinge, porque nada sou.